O laboratório era completamente branco. Paredes, teto, piso, móveis, instrumentos. A única cor diferente era das telas dos computadores ligados ali, mas até os fios eram brancos. Não havia janelas, e nem mesmo uma porta era visível. O que de fato se destacava naquele local peculiar era a cadeira feita em aço escovado, opaco, colocada no que aparentava ser um local estratégico, e nela estava sentado um vampiro. Ele estava de cabeça baixa, inconsciente e com uma estaca de madeira improvisada trespassando seu coração. Nenhuma gota de sangue pingava dele, mas era visível que estava ferido e bastante sujo. Viera e fora capturado numa batalha cruel. Ele não respirava, pois já estava morto… mesmo que em parte.
Uma mulher trajando um terno preto bem justo se aproximou do vampiro. Só eles dois estavam naquele lugar. Ela tinha em suas mãos dois instrumentos: um se parecia com uma pistola de seringa, completamente branco. O outro era uma pequena barra de aço escovado, opaca, e que não aparentava ter serventia alguma. Ela levantou a cabeça baixa do vampiro, acordando-o e o forçando a olhá-la nos olhos. Mesmo paralisado, ele ainda tinha ciência do que acontecia a sua volta. Podia ver, ouvir e sentir cheiros, mas não se mover ou falar. Neste momento formava um palavrão bastante obsceno na sua mente, ao encarar nos olhos a bela agente oriental. Ela, contudo, não conseguia ler mentes, e mesmo que conseguisse continuaria a esboçar sempre a mesma expressão: apatia total. Ela era como um robô, sendo incapaz de expressar ou sentir emoção alguma, mesmo que as tentasse entender às vezes. Resquícios do seu árduo treinamento para pertencer a Ordem, aos N.O.M., e da sua lavagem cerebral. Este último detalhe, evidentemente, ela desconhecia completamente.
– Muito bem, senhor… – ela fez uma pausa buscando na sua mente os dados que tinha do vampiro – Varkensk de Middletown, ou comumente chamado de Vandwit. Se os nossos registros batem, o senhor tem aproximados 70 anos, transformado aos 18, e é muito amigo do atual regente dos vampiros. Ou ao menos era no passado. É Intrigante pensar como vampiros tão novos tenham ascendido ao poder de Londres, uma capital do velho mundo. Pergunto-me o que houve, ou o que vocês fizeram, com os demais anciões vampiros após a Ordem ter destruído seu antigo regente, Bartholomeus Bla. Contaram-me uma vez que havia pelo menos meia dúzia de anciões vampiros muito interessados no cargo, mas foi justamente um neófito que ascendeu ao tão cobiçado cargo de “príncipe”. Será que você poderia me dizer como?
O vampiro fez um barulho, amaldiçoando na sua mente a agente. Sabrina Hills, como era chamada, nada esboçou. Ela sabia que ele estava paralisado, e que não poderia lhe responder, mas isso pouco lhe importava. Quando fosse o momento certo teria suas respostas. Por hora, apenas continuou seu interrogatório silencioso.
– Minhas próximas perguntas serão mais atuais, e úteis. Quem é o tal demônio que está ajudando vocês? O que ele deseja com isso e o que tem a ganhar? O que vocês, vampiros, sob as ordens do seu regente, desejam matando pessoas inocentes? Sabemos que um ou dois anos atrás vocês estavam em conflito interno, justamente quando Bartholomeus caiu. Isso tem alguma coisa haver com a chegada do demônio? O que você sabe?
Ela então encostou o bastão de aço escovado que trouxera no peito do vampiro, aplicando-lhe uma descarga de energia descomunal. O vampiro se contorceu, mas não emitiu ruído algum. Após o choque, Sabrina imediatamente inseriu a seringa da pistola que trazia na têmpora do vampiro, pressionando o gatilho e recolhendo sangue e líquido da região. Com um apático “Agradecida”, ela se afastou e foi até um computador, enquanto que o vampiro parava de tremer devido o choque. Ela depositou o líquido colhido num frasco raso, como o que se usa em microscópico óptico, mas foi um scanner quadrimensional de fótons que analisou a amostra. Os resultados começaram a brilhar no monitor e ela os leu.
– Ora, ora, temos um vampiro com uma mente bastante poluída aqui. – falou sem retirar os olhos do monitor e sem sentimento algum – Afora isso, você respondeu bem as minhas perguntas. Obrigada pelos padrões neurais. Agora vejamos… Você ainda é amigo do regente, mas não o braço direito dele. É ruim ser transformado em capacho, suponho… Em 2011, quando Bartholomeus caiu, vocês foram os responsáveis pela sua traição. Foi assim que nossos informantes descobriram onde ele estava na época… Então vocês, em maior número, destruíram todos os anciões, menos um. Uma pena que você não lembre o nome dele, mas podemos pesquisar mais sobre isso depois. E isso responde a minha primeira pergunta.
Ela fez uma pausa, indo até o vampiro e repetindo todo o processo.
– Agora vamos ao que interessa. O demônio chama a si mesmo de Judas Carionte e ele está sempre acompanhado de algum dos seus lacaios. Uma vampira estranha chamada Simbian… Um feiticeiro negro russo chamado Van-alguma-coisa… Seria esse mago um nefandi?… E um “esquisitão” chamado Levi que parece ser um mago. Bem, eu não esperava tantos lacaios, mas até que você sabe pouco sobre eles. Mas o que temos aqui já será bem útil. Prosseguindo… O demônio deseja uma chave, sendo algo relacionado com dimensões… E ele espera consegui-la com o banho de sangue que os vampiros estão querendo.
Neste momento ela parou. Sua mente começou a trabalhar a todo vapor, tentando assimilar o que tinha lido. “Uma chave relacionada com dimensões… Dimensões…”. Incerta com seus pensamentos, ela resolveu que teria que consultar alguém que entendesse melhor destes assuntos dentro da N.O.M., e já tinha alguém em mente. Prosseguiu.
– Agora sobre vocês, vampiros. – disse pensando se aquele comentário enfureceria ainda mais seu prisioneiro. Para ela é complicado entender as emoções – Vocês desejam matar todo o “gado”, e aqui suponho que esteja falando dos humanos, que for impuro e carregado de doenças. Isso inclui estrangeiros, negros e aliados deles. Então o fato de estarem atacando os magos é por que eles enfureceram o seu regente e são os aliados mais poderosos dos seus inimigos? Creio que isso seja uma mistura de infantilidade com estratégia. “Matemos primeiro quem é perigoso, mas principalmente porque eles me humilharam no Pub The Red Queen”. Bem, isso não consta exatamente desta forma nos seus padrões neurais, mas dá para chegar a tal conclusão. Enfim… Vamos a última pergunta… O demônio nada tem haver com a queda de Bartholomeus e a morte dos anciões, mas ele quem elaborou o plano de ação com o regente para tudo o que está acontecendo. Foi aí que você foi posto de lado e por isso que não sabe os detalhes, uma pena. Mas vejo aqui que o demônio chegou ao regente no dia 22 de Dezembro de…
Sabrina então conseguiu esboçar uma reação, mesmo que ligeira, e ela era medo. Ela foi então até o vampiro e colocou seu bastão de energia na frente dele. Falando as palavras “protocolo de defesa, comando SH-001”, uma gaiola de energia se ergueu ao redor do vampiro. Era impossível alcançá-lo agora sem morrer eletrocutado ou sem conhecer o protocolo de desativamento, o qual somente ela conhecia. Sem compreender a reação da agente, o vampiro apenas a acompanhou com os olhos, satisfeito em ver que ao menos algo a perturbara. Ela saiu da sala para não mais voltar.
No computador que usara os padrões neurais ainda mostravam a última coisa que ela tinha lido.
“… dia 22 de Dezembro de 2012”.
Esta cena ocorre após os acontecimentos da 6ª Sessão do Feiticeiros: Colapso. “Cenas Extras” são Contos envolvendo apenas os NPCs do jogo e que possuem alguma ou total relevância para a história.
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